Sutil como um arco
murmurante como as margens de um lago
como um piano banhado pelo sol
invadindo uma cortina transparente
numa manhã difusa
chega manso como a água que se enrola na areia
traz na voz a preguiça das estrelas do mar
será um astro?
esta luz que atravessa a aminha cabeça
e me embrulha numa paisagem azul
um descobridor
um pólen amarelo
uma vertente
uma linha percorrendo o bosque
uma colmeia
uma coluna
uma lua abraçando países.
Histórias Acumuladas
Este terno de cristal
deverá ser enterrado
com as chaves de sangue
desta fechadura indomável
pomba sóbria
o resto do meu silêncio
vai encher o meu punho
com as histórias acumuladas
deste berço guerreiro
onde a minha mão metálica
acendeu a lâmpada de um despenhadeiro
que me espera no último nervo
que forma a cordilheira desta cabeça
de deuses vermelhos
nesta extensão imaginária
onde finquei a minha raíz
territorial e fértil
não tiro mais o chapéu útero
mas vou doar a ponta brilhante
da minha espada
vou doar a sucuri devoradora
o resto das minhas unhas
e para o roxo dos meus olhos
farei o resumo de um ritual
sem rumo
e vou como um dardo
esconder minha cabeça
na ponta das minhas botas
e quero ver meu sangue
transformar o liquido do meu cântaro
em historias selváticas de esmeralda e quartzo
o resultado de uma escalada
onde a dinastia teceu
de graus absurdos
e vou me arrastando
pelos paredões
desenhando a minha lua roedora
na minha pálida tela assustada
não darei a minha carta a ninguém
ninguém andará pelos caminhos
do meu mapa
nem uma gota d’água
apenas uma ventania
de espinhos
quero ficar só
apenas a sombra da minha estátua
apenas o imóvel dos meus andaimes
apenas o sabor da arquitetura
onde montei a minha mesa
de catedral
para viver com os pássaros
com as águias
em direção ao mel das abelhas
porque este mundo é meu
aos jacarés vou entrega-lo
porque é imóvel a noite que precedeu
as minhas penas carnívoras
voltem todos as suas origens
porque é só minha
a montanha hierárquica
onde dorme o albatroz gigante
a azul gigante deste teatro assassino
onde os personagens estão
pendurados na transparência
hierárquica das minhas lágrimas
mas fale
deixo-te falar
das linhas solitárias abrindo
lâminas neste meu segredo despido
onde cada silaba tem a linguagem
das palavras vazias
onde os soldados cheios de dentes
dormem com seus vagalumes
enlouquecidos
como foi quando transformei
o sonho em larva
as borboletas amarelas em acido
e fiz a cerimonia
onde ficarão as minhas pegadas meladas
para um mundo que é a amarga
fome de um estandarte
mentiroso
e
triste.
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