Eu
Hierárquica hiena de uma floresta determinada por luas
Mulher
o que está em mim mora num raio
o que em mim caminha é um exército de frutos
troquei a densidão por planícies
captei do espesso espelho a vastidão dos vales
e se me foi dado como destino uma cachoeira
é nela que meu cavalo de raça branco relincha e mata sua
sede
e se me deram uma estrada revolucionante e ávida
onde tantas vezes tombei
e fui bicada por negros pássaros
foi nesta estrada que eu mulher copulando com a esperança
trançando os meus naufrágios vesti o meu destino de viajante
e como um vagabundo andante transformei rios caudalosos em
estrelas
esculpi águias dos martelos apontados sobre minha cabeça
e abraçada a estátua de pedra fria banhei com minhas lágrimas
o vagalume
medroso morante desta minha alma lunar e palpitante
e nesta raiz de luz molhei a minha língua sedenta
e transformei a minha taça vazia num galopante sol de
cerejeiras
e por aqui me encontrei um dia
um bicho de seda vindo de um inferno de fúrias
mas selvagem como um cavalo bravo expulsei os lutos e entrei
no meio do sol
para banhar meus punhais de brilho e luz
e por isto eu digo que o que está em mim mora num raio
não troquei o meu traje de mulher
apenas me lavei num ramo de verdes
não fiz escudo para minhas pálpebras
apenas algumas vezes banhei com sangue suado a trepadeira
que me atravessa o rosto
as minhas soluções foram lavadas com leite
e deste leite eu fiz o peito e a umidade e o colar com que vesti a minha boca
mulher
espessa
úmida
meu atributo é um pássaro silencioso e quieto
amarrei
enredada em fios
tracei o meu destino de rede na profundidade das águas
vênus e medusa
dirigida por mercúrio
embrulhada num triângulo
acordei um numa terra endividada de dúvidas
desarmada e nua para quem só veio garimpar cristal
ser voante
mulher de alarnes não gostei de nada do que vi
ando em busca de águas e uvas
ciclista de estrelas
encontrei muros de lodos e estátuas de açúcar submersas
me abraçaram rostos de panos
trocaram o meu prato de
framboesa por sal
meus olhos viajantes curiosos e sedentos que traziam o verde
pousaram
na mesa cinza onde dormiam gigantes embrulhados em relógios
de aço
fui obrigada a tomar um vinho amargo numa cuia de pedra
percebi que o que me ofereciam eram pequenas vogais rasgadas
com as quais
jamais poderia escrever a minha história
mas um dia eu percebi que era mais forte que as grades
da minha gaiola
dia a dia enquanto eu dissertava o meu poema de vida fui
alargando as minhas grades
um dia me vi manhã
eu pássara flutuando num tapete de estrelas
eu mulher agarrada a um feixe de verdes transformei a selva
em floresta
massacrei os cinzas indomáveis em linhas coloridas
e me encontrei poeta
me deixem ser anjo porque nasci com asas
me deixem ser águia porque nasci cristalina
me deixem o espaço do palco, porque é só lá que o meu sangue
retém a festa
é lá que celebro
minha vitória de ser mulher pássara
por isto eu grito
que esta em mim mora num raio
mulher terrestre e marinha
poeira de uma lua nua e antiga
entregante de uma mala de povoados
... de alabastro e fibras
...
mulher
um camelo caminhante de um deserto em direção a água
dou de beber a esta pássara sedenta
e o meu atributo é um
pássaro silencioso e quieto
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