quarta-feira, 15 de junho de 2016

OUTROS POEMAS

Vem
montado no teu cavalo branco
eu semeei girassóis no meu campo
plantei campos de margaridas
tem amores perfeitos por toda a estrada
vem
pisa com teus cascos
pisa firme que eu quero te ver encharcado de flores
cheirando a campo, a grama e a terra
vem que eu te quero
nesta manha
nesta tarde
e se possível pela noite toda
cavalgando em mim
me encharcando com teu cheiro de campo
vem
traz para minha rede este teu rosto de seda
quero teu cabelo a penetrar no meu rosto
a entrar pelas narinas
quero o som que vira da tua respiração
vem vamos brincar de correr pela plantação
tu o meu cavalo branco
eu a tua égua mansa
juntos passaremos trotando pelas arvores
e será manhã
e terá vento balançando as nossas crinas
vem
eu quero o teu ombro para fazer a minha cama
quero os teus nervos nos meus para tecer nuvens
e fazer um agasalho para me proteger do frio
traz teus olhos
quero brincar e fazer mágicas com eles
me ajoelhar no chão e brincar de bulicas com eles
quero teu pescoço para fazer uma escadaria
onde vou subir e encontrar a torre onde está o sino
e vou tocar este sino
e só nós vamos escutar
quero fazer fios
longos fios com os pelos do teu corpo
e depois estende-los como se fosse um varal
e aí eu quero brincar de malabarista
que me procura e me dá medo
quero tomar a quentura e o calor do teu corpo
como se fosse o meu chá
quero fazer das tuas pernas o meu cata-vento
e neste sangue que por elas corre eu quero
brincar de roda gigante
eu quero os teus pés puxando os meus
marcando as horas no relógio
quero o segredo dos teus cílios que muito mansos
falam com meus olhos
nesta manhã eu quero adubar o teu corpo
e me plantar
e um dia eu quero nascer presa aos teus músculos
e um dia quando eu já for flor
quero morar no jarro da tua casa
quero andar pelos teus tapetes
beber a água do teu copo
colocar o teu açúcar no meu café
comer do teu pão
deitar na tua cama
dormir no teu travesseiro
nesta manhã eu quero entrar pela tua janela
passar pela tua porta
me atravessar dentro de mim mesma
quero as nuvens que se atravessam no teu céu
e se aproximar da tua janela
queria me instalar na tua vidraça
ser um pouco de reflexo no teu mundo
hoje nesta manhã eu queria ser apenas o casaco
que veste o teu corpo e te cobre de frio

UM MERGULHO ANTES DA PARTIDA

Não abri o guarda sol de prata
nem respirei a doce manhã guardada no meu bolso de mármore
não pude nem cantar o meu lamento nesta solidão de oceano em que cortei
a minha boca como uma pedra de coral tatuada no fundo de um oceano
não vivi o de repente dos topázios
nem fiquei nua diante das facas que espreitavam as minhas asas
fui cortada com uma tesoura de fogo
fui tecida com o medo
embrulhada numa cortina de uma janela profundamente fechada
e sei que vim vestida de algas
com braços de polvo
saltando pelas estrelas
espaçosa como uma gaivota
veloz como um escafandro
sei que vim
tenho certeza
da lua presa nos meus dedos
das vertentes amarradas no meu corpo
dos jasmins fotografando as minhas veias
sei que vim
tenho certeza
da lua presa nos meus dedos
das vertentes amarradas no meu corpo
dos jasmins fotografando as minhas veias
sei que vim
numa hora espessa
separando as páginas das linhas
debaixo da minha pele de fruta
e assim vim
destampando o veludo das minhas taças de alabastros
mas cheguei só
quieta como um caracol
plena como uma pálpebra
ilimitada como uma vitrine de ágata
acesa como uma flecha
mas cheguei e me encontrei só
como um papel noturno largado sobre a mesa
uma constelação repartida descansando num divã de folhas sem transparência
e fiquei submersa
e fiquei submarina
assistindo a água bater nos recifes
transportando um turbilhão nas minhas mãos vazias.

...
a visão não é fixa
e nem presa a estrela absurda
que me contempla
ando descalça pelos musgos
meus pés molhados
serão meus pés?
O anjo brinca na roda que não é de ciranda
e nem de ciranda mais um tempo
que não é mais criança
na cadeira vazia há um lobo
sem ritmo de brinquedo
as pancadas são secas e descem pelo corpo
o corpo é o fim da ave
e o caminho não foi transcorrido
como não foi a história que nem foi e nem foi vivida
o tempo aciona a ausência de uma
lágrima que ficou na umidade do ser
apenas uma gota feita uma moldura de silêncio
os vidros limitam a extensão
além deles um relógio que marca com vento
emoções subindo campos
o sumo atávico toca um hino secular
...
que não é mais música
na esquina a fúria
no pátio espoliada descansa uma
pomba já sem movimentos
na esquina oprimida o fim de uma rua
onde o sol não tira mais a roupa
onde a vida fabrica e repete
os cavalos passam com suas crinas
marcam as estradas
um perfil frisa de nada
o que nada é
o que deixou de ser
o chicote faz o jogo
a náusea cobre o corpo
no espaço fica apenas o sopro
a violência silenciosa
da ultima carabina
o caçador em prantos
derruba o sal dos olhos
deixa escorrer
a náusea mascarada de um
discurso torturado
de um peixe sem barbatanas
de um pássaro
com suas asas perdidas.


Dorme o flautista
será o de Hamelim?
que com suas flautas habitadas de pássaros
atravessa impassível os muros desta cidade de pedra
será mesmo Hamelim com suas botas de pano
de bico comprido que acompanhando o verde impassível desta manhã
me entende sobre o sol e me veste de borboleta?
O que me tira dos meus limites
e cobre estes punhais escondidos
em minha fêmea
e liberta a sede de fera dormindo
no meu ultimo refúgio
e porque me arrasta de novo nesta paisagem de sono
porque transponho as minhas fadigas
determinada um dia a não desembrulhar o coração
ali está ele
o flautista
escondendo abelhas no seu chapéu
de aventura ou de história
de que semente nasceu este herói
fotografo e amplio este doce fauno
que descansa na minha morada
isento como um Pégaso
lançado no infinito
não há emergência
nem ventania
e por não haver renuncia flutuo nesta transparência
dos lábios uma aragem
na crônica do sonho o embalo de uma ré
relata um sussurro que só pode ser
de vida muito adquirida
em que porto âncora este singelo navega
com estas mãos entreabertas recolhendo
seu quinhão de ternura
na varanda deste corpo
eu de muito longe faço o meu poema
no meu clarinete de universos
...
E não preciso pintar pássaros porque
amanhece
e eles cantam
Eu e tu
desarmados
dormimos buscando a nossa identidade
de anjos.


Vida
Quem é você?
que constrói jardins e bombas
que cria pássaros e gaviões
que dá uma paisagem azul e o limite dos muros
que decreta a fome para que se comprem alimentos
que abre passagens para que se encontre a punição
e caminhos onde não se encontra
nunca uma justificativa
e milhões de gargantas que não podem gritar
e mãos que não podem alcançar
projeta uma arquitetura para Batman e Tarzan
numa terra onde os homens são formigas
Vida quem é você?
com esta carona gorda
com este olhar vívdo
com esta cara de insatisfação
com este ar de gozo
Quem é você?
Cadeira sem perna
boneca sem braço
mulher sem filho
gato sem língua

Vida! Você me parece uma velha solteirona.

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